Centro de Goiânia: arte, memória e a resistência contra o abandono
Por Rodrigo Zani em 20/08/2025 - 07:57

Görgen defendeu que o Brasil avance na construção de uma “nuvem soberana”, capaz de garantir que dados sensíveis do governo e das empresas públicas fiquem sob controle nacional. “O governo vem trabalhando nisso por meio da Infraestrutura Nacional de Dados, que busca proteger os ativos digitais estratégicos. Mas ainda dependemos de equipamentos e serviços estrangeiros, porque o país não tem grandes fornecedores nacionais”, disse.
O especialista também mencionou a necessidade de políticas públicas mais firmes para evitar a concentração do setor em mãos estrangeiras. “Hoje, dois terços do mercado de serviços de nuvem no Brasil são controlados por quatro empresas estrangeiras. É fundamental estimular provedores nacionais e criar um ecossistema digital brasileiro, sob controle soberano”, afirmou.
Questionado sobre a recente aproximação entre o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e a Amazon Web Services, Görgen destacou que há uma preocupação crescente com a segurança dos dados oficiais. “O GSI está negociando um acordo de cooperação técnica, não um contrato direto. Ainda assim, o tema exige vigilância. Antes, era proibido armazenar dados ultrassecretos em empresas privadas. Agora, a norma diz que preferencialmente devem estar em empresas públicas, o que abre brecha para mudanças”, alertou.
Ele lembrou que a maioria dos sistemas críticos do Estado — como Bolsa Família e SUS — ainda está hospedada nos data centers da Serpro e da Dataprev, o que preserva certo grau de soberania. “Mas é preciso ir além da infraestrutura. O Brasil precisa dominar também a camada de software, desenvolver suas próprias soluções e reduzir a dependência de plataformas estrangeiras.”
Na entrevista, Görgen também comparou os modelos adotados por Estados Unidos e China no desenvolvimento da inteligência artificial. Enquanto os americanos apostam em forte financeirização e dependência das bolsas de valores, a China opta por políticas industriais baseadas em receitas reais e controle estatal. “O mercado financeiro chinês é mais controlado, tem menos apetite especulativo. Eles decidiram ganhar dinheiro com IA por meio de negócios concretos, não com bolhas financeiras”, observou.
O especialista alertou que essa diferença pode ter consequências profundas para o equilíbrio global. “Os Estados Unidos resolveram ganhar dinheiro com IA. A China decidiu ganhar soberania. São estratégias distintas — uma aposta na valorização artificial, a outra em infraestrutura real.”
Para James Görgen, o Brasil tem diante de si uma escolha estratégica que definirá seu futuro tecnológico e econômico. “De 80 anos para cá, não havia algo tão importante. O governo Lula está atento, mas a sociedade debate pouco. Sofremos de uma ‘síndrome de Estocolmo digital’: fomos sequestrados por essas empresas e acabamos por amá-las”, afirmou.
O jornalista concluiu que o país precisa agir com rapidez e lucidez para não repetir a dependência estrutural de outras revoluções tecnológicas do passado. “O Brasil tem a oportunidade de construir sua soberania digital agora. Se perdermos esse momento, continuaremos pagando caro por usar a inteligência e a infraestrutura dos outros.” Assista:
Qual o tempo de treino de força ideal para viver mais, segundo Harvard
28/10/2025 18h18
Treinos de força ajudam a viver mais e melhor, mas não é preciso exagerar para obter benefíciosQuando o objetivo é viver mais e melhor, não é preciso passar horas na academia. De acordo com a Harvard Health Publishing, estudos recentes publicados no British Journal of Sports Medicine mostraram que 30 a 60 minutos semanais de treinos de força já são suficientes para reduzir o risco de morte prematura entre 10% e 17%.
Ou seja, duas sessões curtas de musculação, de cerca de meia hora cada, podem fazer uma diferença na sua expectativa de vida.
A lógica é simples: o treinamento de força vai muito além da estética. Ele melhora a forma como o corpo utiliza o açúcar no sangue, ajuda a controlar a pressão arterial e queima calorias. O resultado é menos inflamação, menos gordura e uma proteção natural contra doenças crônicas como diabetes, câncer e problemas cardiovasculares.
Edward Phillips, professor associado na Escola Médica de Harvard, recomenda trabalhar todos os principais grupos musculares duas vezes por semana durante 30 minutos —ou sessões diárias mais curtas. Os benefícios são graduais —e uma vez por semana é melhor do que nada.
Treinar certo é melhor do que treinar demais
O erro mais comum de quem começa é achar que quanto mais tempo na academia, melhor. A ciência, no entanto, mostra o contrário: o segredo está no equilíbrio entre estímulo e recuperação.
Segundo o American College of Sports Medicine, cinco sessões semanais de 30 minutos de exercício moderado já bastam para garantir bem-estar e afastar doenças como infarto e AVC. Se o treino for mais intenso, três dias por semana são suficientes.
No caso da musculação, o ideal é combinar os treinos de força com atividades aeróbicas leves, como corrida, caminhada ou bicicleta.
Quem prefere treinar pesado pode seguir um esquema de duas a quatro sessões de musculação por semana, alternando os grupos musculares (por exemplo, pernas em um dia e braços no outro). Isso dá tempo para o corpo se regenerar — é durante o descanso que o músculo cresce e a força se consolida.
E sim: mesmo treinos curtos podem ter um impacto duradouro, desde que realizados com regularidade e técnica correta.
Força vem do conjunto: treino, descanso e alimentação
Nenhum treino de força faz milagre sozinho. A longevidade é fruto de um conjunto de fatores, e a alimentação adequada é um dos pilares.
Sem fornecer os nutrientes certos, sobretudo proteínas, ferro, vitaminas do complexo B e minerais como magnésio e zinco, o corpo não consegue reconstruir as fibras musculares e nem sustentar o ganho de força. Outro ponto crucial é o repouso. Músculos não se fortalecem durante o exercício, e sim nas horas seguintes, quando o corpo repara os microdanos gerados pelo esforço. Esse processo consome energia, acelera o metabolismo e melhora o gasto calórico total do dia. Para quem está começando, a recomendação é buscar orientação profissional. Um profissional de educação física pode ajustar o tipo, a duração e a intensidade do treino conforme os objetivos — seja manter a saúde, ganhar massa magra ou simplesmente espantar o sedentarismo.
Antiga estação ferroviária: monumento em Art Déco (Secom Goiânia)
Goiânia nasceu do sonho modernizador de Pedro Ludovico Teixeira, médico e político visionário nomeado interventor federal por Getúlio Vargas durante o Estado Novo. Seu plano era ambicioso: transferir a capital de Goiás da antiga cidade de Goiás (então chamada de Vila Boa) para uma nova região mais propícia ao desenvolvimento econômico, social e político — livre do domínio das oligarquias locais que controlavam o interior goiano há décadas.
Foi nos arredores de Campinas (hoje um bairro da capital) que Ludovico lançou os alicerces do que viria a ser Goiânia, inaugurada oficialmente em 1933. Carros de bois, operários e engenheiros deram forma à nova capital, que já nasceu com vocação de modernidade.
O projeto urbanístico original foi concebido pelo arquiteto e urbanista Attílio Correia Lima, então influenciado pelas ideias modernistas e pelo conceito das cidades-jardins. Ele desenhou um plano que privilegiava a organização funcional dos espaços públicos, a fluidez do trânsito e a convivência harmoniosa entre áreas residenciais, administrativas e comerciais. No centro desse projeto estava o coração urbano da cidade, planejado para abrigar os principais edifícios administrativos, as primeiras moradias, praças, igrejas e o comércio vibrante de uma capital pensada com os pés no futuro.
Hoje, o centro de Goiânia abriga um dos maiores acervos de arquitetura Art Déco do planeta. Esse estilo, que expressa a estética moderna e geométrica do início do século XX, está presente em prédios públicos, antigos comércios e residências. É uma herança arquitetônica rara e valiosa, da qual a cidade deveria se orgulhar. Mas não é isso que se vê ao caminhar por suas ruas.
Boa parte desse patrimônio encontra-se em ruínas, abandonado pela gestão pública e esquecido por parte da sociedade. Fachadas históricas estão encobertas por placas comerciais. Praças estão malcuidadas, sujas, e com infraestrutura deteriorada. Becos e calçadas que já foram palco de histórias de pioneirismo hoje são marcados pela vulnerabilidade social. Homens e mulheres em situação de rua dividem espaço com o descaso — e nos lembram que restaurar o centro passa, antes de tudo, por acolher essas pessoas com dignidade e políticas públicas eficazes.
O poder público falhou, sim, mas não está sozinho nessa omissão. A sociedade civil, universidades, empresários e entidades culturais também têm responsabilidade na preservação do que nos resta da memória urbana. O exemplo do Jóquei Clube de Goiás, demolido para dar lugar a um estacionamento, é um alerta: quando o interesse imediato se sobrepõe ao valor histórico, todos perdem.
A Rua do Lazer é outro símbolo desse descaso — mas também da resistência. Por muito tempo esquecida, ela perdeu vitalidade e estrutura. Porém, mesmo sem apoio institucional, a rua resiste graças à coragem de pequenos empreendedores que vêm reocupando o espaço com bares temáticos, botecos estilosos e iniciativas culturais. Com criatividade e esforço próprio, eles atraem um novo público e devolvem à região parte de sua alma. É um exemplo claro de como a cidade pode se reinventar por meio da cultura e da ocupação urbana consciente.
Entre os monumentos vivos que resistem no centro está o Teatro Goiânia, uma das mais belas joias da arquitetura Art Déco brasileira. Inaugurado em 1942, o prédio combina formas geométricas, linhas elegantes e funcionalidade arquitetônica — um verdadeiro símbolo da estética moderna da época. Mais do que um espaço físico, o Teatro Goiânia é um dos principais palcos da vida cultural da cidade, com concertos, peças, festivais, encontros literários e apresentações de dança. Sua programação e importância histórica o tornam referência nacional em patrimônio cultural preservado.
Outro ponto de destaque é o Phaternon Center, um dos edifícios mais emblemáticos da verticalização da capital. Seu projeto arquitetônico moderno se impôs na paisagem do centro e tornou-se parte do skyline goianiense. Dentro do Phaternon, está o Espaço Cultural Octo Marques, mantido pela Secretaria Estadual de Cultura de Goiás, que oferece exposições de arte, mostras fotográficas, lançamentos de livros e atividades educativas. O Octo Marques se consolidou como um dos mais importantes espaços de difusão artística e de diálogo entre o passado e o presente no coração da cidade.
Ali perto, o Instituto Federal de Goiás (IFG) se destaca como polo de conhecimento, cultura e inovação. A presença do IFG no centro representa uma força viva de formação educacional e transformação social, com cursos técnicos, projetos culturais e ações comunitárias que aproximam jovens, professores e a cidade. A instituição também colabora com a dinamização da região central, gerando circulação, pesquisa e iniciativas ligadas à valorização do patrimônio urbano.
Outro símbolo importante é a Igreja Matriz de Goiânia, também conhecida como Catedral Metropolitana. Com sua fachada neoclássica e interior acolhedor, ela representa não apenas um centro de fé, mas também um marco histórico e espiritual para a cidade. Mais do que templo religioso, é espaço de celebração, acolhimento e memória — um lugar onde fé e cultura se encontram e dialogam com o presente.
Dois marcos fundamentais da vida cotidiana e histórica de Goiânia também resistem no centro: o Mercado Central e o Mercado da 74. O Mercado Central, com sua estrutura em concreto aparente, amplos vãos e identidade arquitetônica própria, é mais que um ponto comercial — é um reduto de sabores, cheiros e histórias. Lá se encontram desde temperos típicos a artesanatos regionais, em uma atmosfera que mistura tradição e afeto.
Já o Mercado da 74, inaugurado em 1950 e tombado como patrimônio histórico, guarda um charme único. Sua arquitetura funcionalista e a disposição interna dos boxes preservam a memória de uma Goiânia em transformação. Ambos os mercados são espaços vivos de cultura popular, gastronomia regional e convivência comunitária. São pontos de resistência e memória afetiva que, revitalizados com respeito e planejamento, podem se tornar âncoras de uma nova centralidade urbana.
E como todo bom centro urbano brasileiro, o de Goiânia também se destaca pelos sabores e saberes populares. A região é repleta de gastronomia típica goiana que fazem parte do patrimônio imaterial da cidade. Há também sorveterias artesanais, que mantêm sabores regionais vivos, e livrarias independentes, refúgios culturais que resistem ao tempo e ao avanço do consumo rápido, proporcionando encontros entre leitores, estudantes e intelectuais.
O centro de Goiânia é mais do que um lugar: é o espelho da nossa origem. É a memória concreta de um povo que, aos poucos, parece esquecer de onde veio. Ainda há tempo de salvar o que restou. Mas isso exige mais do que nostalgia — exige compromisso com o presente, por meio de investimentos em cultura, educação, urbanismo, turismo, assistência social e inovação.
Restaurar o centro não se resume a pintar fachadas antigas ou reurbanizar praças. É preciso olhar para as pessoas que ali vivem e circulam todos os dias. Moradores de rua, imigrantes, trabalhadores informais, artistas, comerciantes e estudantes são parte essencial da paisagem humana do centro. Qualquer proposta de revitalização que ignore essas vidas será incompleta. A cidade precisa incluir, acolher e cuidar — porque preservar o centro é também preservar a dignidade.
O resgate do centro de Goiânia é, portanto, um dever coletivo. Não cabe apenas ao poder público, mas também à sociedade civil, às universidades, aos empresários, às comunidades e aos artistas que fazem da cidade um organismo vivo. Esse resgate pode ser a chave para impulsionar uma economia criativa e cultural sólida, sustentável e inovadora — capaz de gerar emprego, identidade e pertencimento. Goiânia e Goiás têm, em seu centro histórico, um celeiro de possibilidades que pode transformar passado em futuro. Que saibamos reconhecê-las antes que seja tarde demais.
É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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